Revista de Pediatria SOPERJ

ISSN 1676-1014 | e-ISSN 2595-1769

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Número atual: 16(3) - Outubro 2016

Carta do Leitor

Como está nossa Pediatria hoje?

 

Cláudio Moreira Barbosa

 

Provavelmente, você, pediatra, saberia responder a esse questionamento muito melhor que eu, pois vive o dia a dia assistencial e conhece detalhes que um pediatra "das antigas" - para ser tolerante comigo - possivelmente desconhece (eu diria, até mesmo, que há controvérsias sobre esse fato).

Na verdade, minha intenção aqui não é escrever um texto com pretensas respostas, gostaria mesmo de seguir com perguntas e, quem sabe, ajudar aos mais jovens a respondê-las e a preparar-se para o futuro que já chegou para mim.

Sendo assim, questiono: como pediatra, você acha que, hoje, se pratica uma medicina melhor do que eu pratiquei? Por favor, não entenda que eu tenha produzido uma ótima Medicina, apenas observe seus mestres mais contemporâneos ou seus colegas mais velhos e recorde-se acerca das condições de seu aprendizado, bem como de notícias ou de fatos narrados por seus pares, tentando comparar os modelos assistenciais de modo a refletir sobre essa questão.

Reformulando: você acha que, atualmente, o pediatra é mais bem formado do que os das "gerações mais antigas"? Você teve referências profissionais marcantes que nortearam sua formação? É sempre difícil citar nomes, simplesmente porque indicar alguns significa omitir outros. Todavia, se minha intenção é ajudá-lo em suas respostas, cabe elucidar que um pediatra antigo seria aquele que aprendeu com Cesar Pernetta e Ruy Rocha, por exemplo.

É possível que você pense: "Lá vem mais um saudando o passado!", e dir-lhe-ei que tem razão, mas parcialmente. Talvez seja mais justo questionar se, nos dias atuais, faria sentido para a sua formação a existência de mestres como os supracitados ou, além disso, se houvesse as necessárias condições para que eles surjam.

Em outras palavras, com a avassaladora torrente tecnológica que invade a formação do médico contemporâneo, as lógicas de uma boa anamnese e de um cuidadoso exame clínico ainda fazem sentido? Ademais, você aprendeu-as somente como as práticas cotidianas? Outro pedido antes que responda: não coloque como obstáculo a atual e famigerada "falta de tempo", pois lhe garanto que os minutos e as horas se mantiveram inexoráveis ao longo do nosso - meu e seu - exercício profissional.

Outras perguntas são necessárias, ainda que eu agora lhe pareça mais invasivo: a Pediatria de hoje continua atraindo financeiramente os médicos como antes? Suas perspectivas de remuneração mantêm-se especificamente na prática da chamada Medicina privada? A atividade de consultório particular, para ser considerada compensadora monetariamente, precisa ser complementada por outros ganhos financeiros não obtidos por meio dos serviços médicos, como ocorre em muitas outras especialidades? Isso seria um ponto negativo na comparação com a atividade que os pediatras de gerações passadas exerciam, uma vez que somente utilizavam seus conhecimentos e sua energia com o atendimento aos "clientinhos" e familiares?

Não me importo se considerarem minhas perguntas finais politicamente incorretas, haja vista que sigo o famoso bordão "Perguntar é preciso; responder não é preciso." O virtual desaparecimento de homens de nossas residências pediátricas pode significar um relevante sinal de ocaso da especialidade que eu e você praticamos? Por derradeiro: a Pediatria corre algum risco de extinção?

 

Cláudio Moreira Barbosa
Pediatra Convicto
claudio@pronep.com.br