Editorial
DOI: http://dx.doi.org/10.31365/issn.2595-1769.2026.0409
Do diagnóstico ao cuidado neonatal: a sala de parto como eixo da redução da mortalidade por cardiopatias congênitas
From diagnosis to neonatal care: the delivery room as a key element in reducing mortality from congenital heart disease
Del diagnóstico a la atención neonatal: la sala de partos como elemento clave en la reducción de la mortalidad por cardiopatías congénitas
Mariana Póvoa-Corrêa1,2
1 Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Macaé, RJ – Brasil.
2 Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Rio de Janeiro, RJ – Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-8017-7398
E-mail: emanuela.carvalho@ufsc.br
Submetido: 11/02/2026
Aprovado: 12/02/2026
Ao longo das últimas décadas, a prevalência de cardiopatias congênitas ao nascimento tem se mantido alta, embora estável, variando entre 9,4 e 23 casos por 1.000 nascidos vivos em diferentes estudos.1,2 Esses dados confirmam a relevância epidemiológica dessas condições e reforçam a necessidade de capacitação contínua de pediatras e neonatologistas para o manejo de uma população que exige abordagens diagnósticas e terapêuticas altamente especializadas. No panorama global, o Brasil apresenta um avanço significativo, com redução de 77,3% na mortalidade por cardiopatias congênitas entre 1990 e 2019, considerando todas as faixas etárias, resultado associado à expansão do acesso a métodos diagnósticos, ao desenvolvimento da cardiologia pediátrica e à consolidação progressiva de centros de referência.3
Apesar desse progresso, a mortalidade neonatal permanece como um dos principais desafios no cuidado da criança com cardiopatia congênita. Em menores de 28 dias, as cardiopatias congênitas continuam a representar importante causa de óbito, com taxas globais expressivas (760,25 mortes por 100.000 nascidos vivos), conforme evidenciado pelo relatório Global Burden of Disease de 2021.4 No Brasil, persistem desigualdades regionais marcantes, com maior concentração de diagnósticos nas regiões mais desenvolvidas, refletindo diferenças no acesso ao pré-natal qualificado, à ecocardiografia fetal e à organização das redes assistenciais.5 Esse cenário revela que o impacto do avanço tecnológico é limitado quando não acompanhado por políticas de equidade e por integração efetiva entre os níveis de atenção.
Mesmo diante do aprimoramento dos sistemas de vigilância, as taxas de mortalidade ainda superiores às observadas em países de alta renda e as limitações na qualidade dos dados nacionais evidenciam a necessidade de estratégias estruturantes voltadas à descentralização do cuidado especializado e ao fortalecimento da busca ativa para o diagnóstico precoce. Evidências recentes demonstram baixa taxa de diagnóstico pré-natal por ecocardiografia fetal em determinadas regiões do país, indicando falhas na articulação entre o pré-natal e os serviços de alta complexidade.6 Essa lacuna compromete o encaminhamento oportuno de gestantes e recém-nascidos para centros de referência e reduz o potencial impacto do diagnóstico precoce sobre a morbimortalidade.
É nesse contexto que o artigo “Principais cuidados na sala de parto e tratamento pós-natal de recém-nascidos portadores de cardiopatia congênita”, publicado nesta edição da Revista SOPERJ, assume relevância particular. A revisão narrativa sistematiza evidências clínicas e fisiopatológicas fundamentais para o manejo perinatal das cardiopatias congênitas críticas e das arritmias com repercussão hemodinâmica fetal e neonatal, oferecendo uma síntese pedagógica orientada à prática clínica e ao planejamento assistencial.
Ao discutir o papel da ecocardiografia fetal no planejamento do parto e na estratificação do risco perinatal, o artigo demonstra que o diagnóstico pré-natal não constitui apenas um recurso diagnóstico, mas um determinante organizacional do cuidado. A revisão explora modelos de estratificação de risco, descreve níveis de complexidade assistencial na sala de parto e detalha condutas específicas para as principais condições de alto impacto clínico (a síndrome do coração esquerdo hipoplásico, a transposição das grandes artérias, a anomalia de Ebstein, o bloqueio atrioventricular total e as taquiarritmias fetais e neonatais). Ao articular fisiopatologia, sinais clínicos precoces e estratégias terapêuticas, o texto evidencia que a evolução do recém-nascido cardiopata depende da integração entre diagnóstico pré-natal, estabilização hemodinâmica imediata, intervenções farmacológicas e procedimentos invasivos realizados no tempo oportuno.
A revisão enfatiza ainda que o planejamento perinatal deve considerar simultaneamente o risco de instabilidade hemodinâmica ao nascimento, a disponibilidade de recursos regionais e as condições obstétricas maternas. Ao integrar essas dimensões, o artigo reforça a compreensão de que o cuidado ao recém-nascido cardiopata é um processo contínuo, que se inicia no pré-natal e se consolida ainda nas primeiras horas de vida.
O diagnóstico precoce por ecocardiografia fetal e a implementação sistemática do teste de oximetria de pulso constituem condições necessárias, mas não suficientes, para a redução da mortalidade neonatal por cardiopatias congênitas. O elemento decisivo reside na qualidade do cuidado neonatal, na organização das redes assistenciais e na capacidade de resposta do sistema de saúde.5, 6 A consolidação de estratégias integradas de diagnóstico, planejamento perinatal e intervenção precoce representa não apenas um avanço técnico, mas uma condição essencial para a redução sustentável da morbimortalidade neonatal. Ao traduzir evidências complexas em diretrizes clínicas aplicáveis, o artigo desta edição contribui para qualificar a prática assistencial e reafirma que o enfrentamento das cardiopatias congênitas exige não apenas inovação científica, mas também coerência entre conhecimento, organização do cuidado e compromisso com a equidade.
REFERÊNCIAS
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3. Su Z, Zou Z, Hay SI, Liu Y, Li S, Chen H, et al. Global, regional, and national time trends in mortality for congenital heart disease, 1990-2019: An age-period-cohort analysis for the Global Burden of Disease 2019 study. EClinicalMedicine. 2022;43:101249.
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5. Cabral GHB, Guerra JVN, Pedrosa KU, Conrado PLM, Fonseca JHA, Luna VLM, et al. Congenital heart disease: epidemiological profile of live births, geographical distribution and temporal trends in Brazil from 2012 to 2022. BMC Cardiovasc Disord. 2025;25(1):599.
6. de Oliveira FG, da Costa Salecker GO, de Souza AL, Arashiro CS, Pires JR, Nolibos VB, et al. Epidemiology of congenital heart defects in live births: findings from a study in Southern Brazil. BMC Cardiovasc Disord. 2026;26(1):123.
Editor:
Fernanda Pinto Mariz.
ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6981-2352
Editora:
Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro – SOPERJ
E-mail de contato: secretaria@soperj.org.br
Financiamento:
Não há.
Disponibilidade de dados da pesquisa:
Os dados utilizados no estudo podem ser obtidos por meio de solicitação ao autor correspondente.
Conflito de interesses:
Não há.